Artigo · a partir dos ensinamentos de Gilberto Franzoni
As Duas Faces do Orgulho
nós estamos afastados da nossa própria divindade interior por puro orgulhoGilberto Franzoni
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Há uma pergunta que quase todo praticante faz cedo ou tarde, e quase sempre com a mesma expressão no rosto: orgulho, eu? Mas eu não me acho melhor do que ninguém. A pessoa diz isso com sinceridade. Não está se defendendo. Ela realmente procurou dentro de si aquele sujeito arrogante que passa por cima dos outros, e não encontrou. Concluiu, então, que o orgulho não é o seu problema, e foi cuidar de outra coisa.
Esse é, provavelmente, o maior mal-entendido do trabalho interior. E enquanto ele durar, o trabalho não sai do lugar — porque estamos procurando no lugar errado.
O orgulho é o primeiro nome do verso da conjuração, onde aparece como Chavajoth, e o primeiro capítulo do manual dos elementos densos. Não por acaso: é dele que os outros seis se aproveitam.
I
Comecemos pela definição, que é curta e organiza tudo o que vem depois.
O orgulho é a vontade de servir a si mesmo.
A humildade é o contrário: é a vontade de servir a Deus, a vontade de servir aos outros.
Repare que não há nada, nessa definição, sobre achar-se superior. Superioridade é apenas uma das formas que a coisa assume. A essência é outra: a atenção voltada para si.
E daí decorre a gravidade do assunto. Se o orgulho é a vontade de servir a si mesmo, então é ele, precisamente ele, que nos afasta da nossa própria divindade interior. Não é um defeito ao lado dos outros — é o que mantém a distância entre nós e aquilo que somos. Estamos separados do nosso íntimo por puro orgulho.
II
Antes de tratá-lo como inimigo, porém, é preciso entender por que ele existe. E aqui o assunto deixa de ser moral.
O orgulho não é um problema nem uma solução. Ele é o que é, e precisamos lidar com ele do jeito que ele é. Nós o produzimos, e o produzimos por um motivo: a individualidade.
Quem está no paraíso não tem consciência de si. Não há ali um eu destacado do resto. Para adquirir individualidade foi preciso descer, separar-se, dizer eu — e o orgulho foi o preço dessa aquisição. É o mesmo movimento que a tradição guardou na figura de Lúcifer, e no fruto comido no jardim: o homem se tornou igual a nós
, diz o texto, e diz sem espanto.
O percurso completo, então, é este: primeiro optamos pela individualidade e desenvolvemos orgulho; depois trabalhamos para eliminá-lo e voltar à coletividade. Porque no mundo do Cristo não existe individualidade egoica — preserva-se aquilo que se é, mas se entra num coletivo, e no mundo do Cristo todos somos Cristos
. Eliminar o orgulho não é se anular. É lembrar da origem.
III
Voltemos, agora, ao mal-entendido do começo. O orgulho trabalha em duas dimensões, e a segunda é a que atravessa vidas inteiras sem ser reconhecida.
A primeira dimensão é a que todos conhecem. Eu sou melhor do que aquela pessoa, vou passar por cima dela feito trator. É o orgulho que se mostra, que ostenta, que não pede ajuda, que sempre tem razão, que se ofende com facilidade. Esse é fácil de nomear — inclusive nos outros.
A segunda dimensão é esta: eu não sou nada. Eu quero me enfiar embaixo da cama, embaixo do tapete. Estou muito triste, estou muito mal, estou deprimido, não tenho nenhuma capacidade, zero.
São as duas faces do mesmo elemento. A pessoa se colocou no altar, ou se colocou na rua da amargura como mendigo — e todos esses extremos são próprios do orgulho.
Convém deixar isso sem eufemismo, porque é a informação mais útil deste artigo. A depressão é orgulho. A culpa que não passa é orgulho. O vitimismo é orgulho. A autopunição é orgulho. Não porque a pessoa esteja fingindo, nem porque o sofrimento não seja real — mas porque a raiz é idêntica: a atenção presa em si mesma. Quem se acha o pior do mundo continua se achando o centro do mundo.
É por isso, também, que perdoar a si mesmo costuma ser mais difícil do que perdoar os outros. Quem se debruça sobre esse ponto encontra sempre a mesma coisa por baixo: eu me sinto muito importante, eu não posso errar. Eu sou santo, eu sou perfeito.
IV
O orgulho é um general, e comanda muitos. Vale conhecer os subordinados, porque é por eles que ele opera no dia a dia.
Orgulho místico — o mais difícil de todos, e o que exige mais anos de trabalho. Está por trás de todas as religiões do mundo. Tem duas faces, como a Lua: na face visível estão os templos, a beleza dos textos, as pessoas sinceras reunidas; na face invisível estão as guerras religiosas e, no fundo delas, os ciúmes religiosos — porque a minha religião é o melhor que a sua
— e as degenerações sexuais que nascem onde se proíbe o encontro entre homem e mulher. As religiões operam com dois instrumentos: o medo e a crença. E pedem que se olhe para baixo.
Teimosia — achar que sabemos tudo, que sempre temos razão. É perigosa porque cega: o teimoso impede que a gente veja a verdade, porque fica projetando na tela mental aquilo que ele supõe que é verdade. Então ele só vê ele mesmo.
O sinal é rechaçar uma informação de imediato, sem interiorizar, sem meditar.
Autoconsideração — o amor-próprio ferido. A régua é simples e não falha: se eu estou ofendido, é porque eu valorizei o ego — porque o Ser que Eu Sou não se ofende com nada.
Junto da ofensa vem sempre o mesmo cortejo: a justificativa, a indignação, a conversa mental que não termina.
Culpa — em grande parte herdada da egrégora religiosa, e não do próprio erro. A pessoa mergulha numa negatividade e não sai mais dali. É preciso distinguir os ensinamentos do Cristo do cristianismo que se construiu depois.
Vergonha — também ela é uma ramificação do orgulho. Não aparece assim nas sessões gravadas: entra nesta lista por confirmação direta do próprio Gilberto.
Idolatria — colocar alguém num pedestal, e querer estar em um. Nenhum mestre quer ser colocado ali. Sobre isso a advertência é direta: se alguém achar que este ou aquele homem é importante por algum motivo, pode ter certeza de que não é.
Vaidade, soberba, arrogância e ilusão são termos vizinhos, da mesma família. E nada disso guarda relação com dinheiro ou posição: confunde-se humilde com pobre, e são coisas inteiramente distintas. Uma pessoa pode ter dinheiro e não ser orgulhosa; e pode ser pobre e não ser humilde.
V
Tudo começa pela auto-observação. Não se renuncia àquilo que não se viu.
E a observação precisa ser concreta. Não basta concluir “eu tenho orgulho” — isso é uma ideia, não uma observação. É preciso poder dizer: naquele dia, naquela hora, nessa cena, esse elemento denso se manifestou; e foi assim que ele agiu; e ele tirou energia daqui — do plexo cardíaco, dos pensamentos, da região sexual.
Convém saber, ainda, que ele raramente aparece nos grandes momentos. Aparece nas coisas pequenas, e é isso que o torna difícil de flagrar. Gilberto conta uma cena doméstica que ilustra melhor do que qualquer teoria: deixou o chinelo no banheiro, a esposa jogou o chinelo para fora, e ele reagiu — deixa o chinelo aí, eu também sou dono desse banheiro
. Sentou na cama depois e se perguntou: o que é que eu fiz? Fui possuído. O que é que eu estou brigando por causa de um chinelo?
Foi investigar e lá estava, inteirinho, o elemento do orgulho.
Uma última nota sobre a detecção, e ela é encorajadora. Cada pessoa tem um ponto cego, e há inclusive uma tendência astrológica nisso: quem é de Leão custa a enxergar o orgulho, quem é de Touro custa a enxergar a teimosia, quem é de Áries custa a enxergar a ira — justamente porque é o raio principal daquele signo. A dificuldade é maior exatamente onde mais importa. Mas há compensação: se a pessoa consegue perceber o seu maior defeito, aquilo também se torna a sua maior virtude.
VI
Vista a coisa, resta dissolvê-la. Os instrumentos são conhecidos, e a ordem entre eles importa.
O primeiro é a Lei do Perdão, e ela é o instrumento direto contra o orgulho por uma razão precisa: o orgulho é o principal fator que impede alguém de perdoar. Quando se pensa “aquela pessoa não merece o meu perdão”, é ele falando, e mais nada.
Mas o perdão precisa de foco. Essas estruturas funcionam como um raio laser — precisam de um alvo certinho para atingir aquilo que se quer. Não se perdoa “todo mundo”, em geral, no atacado. Perdoa-se aquela pessoa, com nome, por aquilo. E depois, o mais difícil de todos: perdoar a si mesmo.
Antes disso, porém, há um trabalho preliminar que muita gente pula. Raiva e ódio impedem o perdão. Enquanto estiverem ativos com relação àquela pessoa, não há como exercer a lei sobre ela. Limpa-se primeiro o que está por cima.
O segundo instrumento é a Lei da Renúncia — e aqui vai a advertência mais importante de todas: a renúncia funciona proporcionalmente ao nível de compreensão. Renunciar a um nome tirado de uma lista, sem ter compreendido o que aquilo é, deixa a renúncia manca. Não que não funcione — funciona na medida exata do que se entendeu.
Trata-se o elemento como coisa palpável, e não como abstração moral: um parasita, como se fosse uma pulga, como se fosse um carrapato, alguma coisa que está tirando a minha energia.
E ao eliminá-lo, extrai-se de dentro dele uma parte de luz — porque há luz ali dentro. Essa luz é um elemental da natureza, e é ela que sintoniza a virtude correspondente. Podem vir dois décimos por cento. Podem vir três. Fazendo todo dia, a todo momento, um dia se chega aos cem.
Há ainda dois gestos, e são gestos mesmo, não conceitos. O primeiro é ajoelhar: quando o elemento é o orgulho, o pedido que vem é sempre esse. Porque assim ele morre — precisa dobrar aqui. Quebrou as pernas do orgulho.
O segundo é pedir ajuda, que é ao mesmo tempo antídoto e medida do progresso. Não pedir é sintoma. Pedir já é estar trabalhando. No passado eu era mais orgulhoso. Agora eu ponho o joelhinho no chão, não tem preguiça não. Quando a gente pede ajuda, a ajuda vem.
VII
Não se elimina um defeito para ficar com um vazio no lugar. O lugar é ocupado pela virtude oposta — e no caso do orgulho são duas, que caminham juntas: a humildade e a fé.
A ligação entre as duas não é evidente, e é reveladora. O orgulho produz crença. E crença não é sinônimo de fé: é o seu contrário.
A fé é ver por si mesmo, sentir por si mesmo, aprender por si mesmo, observar por si mesmo, vivenciar. Isso é fé — todo o resto é crença.
Quem nunca teve uma experiência no astral pode ler mil livros sobre o astral e continuar sem fé alguma: tem apenas a crença de que outra pessoa teve. Por isso, quando se desce à esfera do orgulho, encontra-se ali muita crença e nenhuma fé. São o mesmo território.
Trabalhar o orgulho, portanto, não é apenas ficar mais modesto. É trocar aquilo em que se acredita por aquilo que se verificou.
Não coloque ninguém no pedestal.
Se nós pegarmos os mestres que vêm para o planeta e os colocarmos num pedestal, o pedestal cai na nossa cabeça.
Dentro do templo, o coração, só existe um único espaço.
Em poucas palavras
Perguntas frequentes
O que é o orgulho segundo Gilberto Franzoni?
O orgulho é a vontade de servir a si mesmo, e a humildade é o contrário: a vontade de servir a Deus e aos outros. A essência do orgulho não é achar-se superior, e sim a atenção voltada para si. Por isso é ele que nos afasta da nossa própria divindade interior.
Fonte: Sistema Energético de Resgate, 3ª Parte
Quais são as duas faces do orgulho?
O orgulho trabalha em duas dimensões: numa, a pessoa se acha melhor do que os outros e passa por cima deles; na outra, acha que não é nada, sente-se triste, deprimida e sem nenhuma capacidade. As duas são faces do mesmo elemento, e colocar-se no altar ou na rua da amargura como mendigo são extremos próprios do orgulho.
Fonte: Sistema Energético de Resgate, 3ª Parte
Depressão pode ser uma forma de orgulho?
Sim, a depressão é uma das faces do orgulho. Não porque a pessoa esteja fingindo ou porque o sofrimento não seja real, mas porque a raiz é a mesma: a atenção presa em si mesma.
Fonte: Sistema Energético de Resgate, 3ª Parte
Por que o ser humano desenvolveu o orgulho?
O orgulho foi o preço da individualidade: quem está no paraíso não tem consciência de si, e para adquirir individualidade foi preciso descer, separar-se e dizer eu. O percurso completo é desenvolver o orgulho e depois trabalhar para eliminá-lo.
Fonte: Sistema Energético de Resgate, 3ª Parte
Como perceber o orgulho em mim mesmo?
Pela auto-observação concreta: não basta concluir que se tem orgulho, é preciso identificar o dia, a hora e a cena em que ele se manifestou, como agiu e de onde tirou energia. Ele raramente aparece nos grandes momentos, e sim nas coisas pequenas, como uma briga por causa de um chinelo deixado no banheiro.
Fonte: Sessão Instrutiva 119, Perdão, Renúncia e Revogação em AYASER Cambé PR
Como eliminar o orgulho?
Os instrumentos são a Lei do Perdão, com foco numa pessoa específica e depois em si mesmo, e a Lei da Renúncia, que funciona proporcionalmente ao nível de compreensão do elemento. Antes de perdoar é preciso trabalhar a raiva e o ódio, que impedem o perdão. Há ainda dois gestos que ajudam: ajoelhar e pedir ajuda.
Fonte: Sistema Energético de Resgate, 3ª Parte; Sessão Instrutiva 119, Perdão, Renúncia e Revogação em AYASER Cambé PR
O que é orgulho místico?
O orgulho místico é o orgulho que se esconde na vida religiosa e espiritual. Tem duas faces, como a Lua: na visível estão os templos, a beleza dos textos e as pessoas sinceras reunidas; na invisível, as guerras e os ciúmes religiosos.
Fonte: Sessão Instrutiva 48, Selene A Deusa da Lua; Folha 48 do S.E.R.
Qual a diferença entre fé e crença?
A fé é ver, sentir, aprender, observar e vivenciar por si mesmo; todo o resto é crença. O orgulho produz crença, que é o contrário da fé, e por isso na esfera do orgulho há muita crença e nenhuma fé. Trabalhar o orgulho é trocar aquilo em que se acredita por aquilo que se verificou.
Fonte: Sessão Instrutiva 49, Fé e Humildade; Sessão Instrutiva 16, Resgate; Folha 49 do S.E.R.
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