Artigo · a partir dos ensinamentos de Gilberto Franzoni
Cobiça e Inveja
A cobiça quer possuir aquilo que é do outro, a inveja deseja possuir algo parecido com o que outro tem.Gilberto Franzoni
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No uso corrente, cobiça e inveja são quase sinônimos. Servem as duas para dizer que alguém quer o que não é seu, e a maioria das listas de pecados capitais as trata como variações do mesmo defeito.
Gilberto Franzoni diz o contrário, e diz com todas as letras. Na folha da sessão sobre o altruísmo ele escreve que considera muito importante verificar a diferença entre cobiça e inveja, e em seguida entrega uma regra que separa as duas em uma frase. Este artigo é sobre essa regra: o que cada uma quer, como cada uma chega, por que uma é fácil de ver e a outra quase impossível, e o que nasce no lugar delas.
I
Comecemos pela frase, porque ela resolve o assunto antes de qualquer explicação.
“Cobiça e inveja são elementos densos diferentes. A cobiça quer possuir aquilo que é do outro, a inveja deseja possuir algo parecido com o que outro tem.”
A diferença não está na intensidade do desejo nem no caráter de quem sente. Está no objeto. E o objeto tem um teste simples: existe outro igual?
Ele explica com dois exemplos. O primeiro é o de um homem que olha uma mulher já comprometida e passa a desejá-la. Como ela é única, não existe outra pessoa igual a ela, e por isso o desejo se fixa naquela mulher especificamente. Isso é cobiça. O segundo é o de alguém que olha um celular bonito e pensa que queria tanto ter um igual. Celular é objeto comum, existe outro idêntico, e a pessoa vai comprar o seu. Isso é inveja. E vale, diz ele, para carro, casa, roupas.
Repare no que a regra faz. Ela tira o julgamento moral do meio e coloca uma pergunta de fato: o que estou querendo pode ser duplicado, ou só existe naquela vida, naquele lugar, naquela pessoa? Quem responde essa pergunta com honestidade já sabe com qual dos dois está lidando.
II
Vamos à primeira delas, e ao lugar onde ela aparece pela primeira vez.
A cobiça, ele lembra, atua no ser humano desde os primórdios da humanidade, e está nos dez mandamentos deixados por Moisés. A citação é de Êxodo: não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.
Observe a lista. Em nenhum momento ela proíbe desejar uma casa. O que ela nomeia é a casa dele. O mandamento inteiro é construído sobre o mesmo critério que ele usa: o objeto pertence a alguém, e é aquele objeto que está sendo querido.
O que a cobiça faz com quem a carrega, ele descreve sem eufemismo. No exemplo da mulher, ela produz forte desejo sexual no homem e o movimenta feito marionete até ele encontrar uma forma de se aproximar. Fora desse exemplo, ela faz a pessoa desejar dinheiro, posses, poder. E vai além: alguém cobiçoso pode fazer de tudo para subir na vida, inclusive sendo desonesto e prejudicando deliberadamente outras pessoas que entram no seu caminho. Numa das lives ele resume o alcance disso de forma direta: a cobiça faz as pessoas matarem para conquistar coisas.
Duas notas de vocabulário, porque elas evitam confusão em quem lê outros autores. A primeira: onde Samael Aun Weor escreve avareza, ele escreve cobiça, e trata as duas como a mesma vibração — na sessão do altruísmo ele conta que colocou cobiça e avareza como sinônimos porque, na hora de escrever o texto, via a mesma vibração nas duas. A segunda: junto da cobiça ele manda observar também o egoísmo e a ingratidão, que aparecem no mesmo terreno.
III
Agora a outra, que funciona por um mecanismo completamente diferente.
A inveja não fixa num objeto único. Ela trabalha por comparação. Ele usa uma imagem que todo mundo conhece: a grama do vizinho é sempre mais bonita, sempre melhor. O motor não é o objeto em si, é a distância entre o que o outro tem e o que eu tenho.
O exemplo que ele dá na folha da sessão é de trabalho, e é o mais reconhecível de todos: alguém é promovido, e passa pelo pensamento algo como “veja, fulano ganhou uma promoção! E eu, estou aqui a tantos anos e ainda não subi de cargo”.
“Uma pessoa com inveja se magoa pelo sucesso da outra.”
E então ele descreve o que quase nenhum tratado sobre o assunto descreve: para onde isso vai com o tempo. Os constantes sentimentos de comparação viram ressentimentos, os ressentimentos viram mágoa, e quando a mágoa é profunda vira ódio. É uma escada, e cada degrau é feito do anterior.
O último degrau sai da psicologia e entra no corpo. Nesse ponto, escreve ele, a inveja começa a afetar o coração e outros órgãos, trazendo vibrações extremamente densas que, acumuladas, podem se tornar doenças. E ele grifa a afirmação para que ninguém a leia como metáfora: o elemento denso vira doença dentro do corpo. Do que decorre a consequência inversa, que é a razão do trabalho: eliminá-lo corresponde precisamente a uma forma de cura, em todos os níveis do interior.
Na sessão, falando ao vivo, ele acrescenta a sensação de quem está com ela instalada: a inveja irrita, e parece um ácido correndo pelo sangue.
IV
Cada uma tem uma cor, e ele as descreve com precisão de quem está olhando.
A sintonia vibracional da cobiça se manifesta pela cor ocre, algo parecido com amarelo misturado ao marrom, um amarelo sujo, denso, escurecido. A inveja se manifesta pelo verde musgo, um verde sujo, de aspecto asqueroso.
A inveja tem ainda uma forma, que ele repete em mais de uma sessão: apresenta-se como uma cobra de cor verde escurecida, enegrecida. Numa das sessões ele completa o desenho — a cobra que se enrosca no galho, fica lá em cima e espera o bote.
Isso não é decoração do texto. É descrição de percepção, e serve a quem for procurar dentro de si: procura-se por vibração e por cor, não por nome.
V
A diferença mais útil no dia a dia, porém, não é o que cada uma quer. É por onde cada uma entra.
Ele compara os elementos densos pelo jeito de chegar. A raiva vem de frente, e ele descreve o encontro quase fisicamente: ela vem com os dois pés no peito. O orgulho também se mostra. A inveja, não.
A inveja nunca vem pela frente. Vem sempre por trás.
Quem já sentiu isso reconhece a descrição que ele dá: um peso nas costas, como se alguém tivesse posto ali um saco de cimento. E ele oferece um sinal externo, para quem quiser conferir no mundo. Troque de carro e vá à casa de um parente: dá para ver no olho da pessoa, o olho cresce, e ela não diz nada.
Há um detalhe nessa passagem que incomoda e que é justamente o ponto: a inveja normalmente vem das pessoas mais próximas, e sem que elas saibam. É inconsciente. Ele descreve o mecanismo como o de um parasita, que se instala num corpo, olha para outra pessoa, e vai até lá provocar irritação.
Daí uma consequência doméstica que ele repete em duas sessões, e que é o teste mais barato que existe para esse elemento: brigas de casal que começam do nada. Caiu uma colher no chão e a briga aconteceu. Não havia significado nenhum na cena, e mesmo assim ela virou briga. Ele manda estudar isso, porque por trás costuma estar a inveja. E lembra que certos ciúmes são da mesma linha.
VI
Existe ainda a razão pela qual a inveja é, das duas, a mais difícil de encontrar em si mesmo.
Ela é o elemento que ninguém aceita ter. As pessoas sentem vergonha dela — e, no entanto, ele afirma que é mais comum do que se imagina. Uma coisa alimenta a outra: como ninguém quer ver, ninguém vê.
Daí nasce a expressão que ele derruba mais de uma vez: a tal da inveja branca. Ele não faz concessão. Não existe. Numa das sessões diz que ela até tenta ser branquinha, mas não funciona. Em outra é ainda mais seco: não importa se ela é branca, se é amarela, se é verde. Ela é o que é.
E há o disfarce mais eficiente de todos, que ele descreve para quem já está em trabalho interno: sem auto-observação, a pessoa vai achar sempre que aquilo é admiração. A vibração é densa, e é possível perceber que é densa. Mas só percebe quem está observando.
É por isso que ele insiste num ponto de método: só se elimina o defeito que se descobre ter. Quem não sabe que tem não tem o que renunciar. E os elementos, diz ele, estão sempre se mostrando — a ponto de dizerem o próprio nome pela nossa boca. Quando alguém olha um aparelho novo e solta um “que inveja desse celular”, foi o elemento que se apresentou.
VII
Nenhuma das duas fica de fora do terreno espiritual. Ao contrário: é lá que elas ficam mais bem escondidas.
Ele descreve uma inveja que quase ninguém identificaria como tal. A pessoa lê o livro de um mestre, que conta que saiu em astral e fez isto e aquilo, e passa pela cabeça dela um pensamento: eu ainda não fiz isso. Ou compara o próprio trabalho com o dos outros: está trabalhando muito, não vê nada no chá, e os outros parecem estar viajando para toda parte.
É a mesma comparação, aplicada a outro objeto. E ele trata isso como treino, não como acusação: a inveja é uma treinadora, do mesmo modo que a ira, o orgulho e a fornicação são treinadores. Eles treinam a pessoa exatamente onde dói mais, e é aí que ela precisa se concentrar.
Sobre as duas juntas, nesse mesmo terreno, ele deixa uma frase que fecha o assunto e que serve de régua para qualquer prática: não se chega às dimensões superiores invejando-as nem cobiçando-as.
VIII
Antes das virtudes, um aviso que ele mesmo escreve na folha e que é fácil de pular.
“Precisamos ter cuidado com radicalizações, pois existem sentimentos saudáveis também, ou seja, nem tudo é ego.”
Ele diz isso logo depois de dar os exemplos do celular e da mulher, e explica por quê: aqueles são exemplos do cotidiano, e servem para compreender como a cobiça e a inveja agem dentro de nós. Cada caso, escreve ele, precisa ser analisado de acordo com a sua vibração e densidade.
Vale sublinhar isso, porque um estudo assim tem um risco embutido. Quem aprende a nomear os elementos densos pode passar a ver elemento denso em tudo, inclusive no que é apenas gosto, admiração legítima ou vontade sadia de construir. Querer uma casa não é cobiça. Achar bonito o que o outro conquistou não é inveja. O que define não é o objeto do lado de fora: é a vibração do lado de dentro, e o peso que ela tem.
IX
Chegamos ao que nasce quando elas morrem, que é a razão de todo o estudo.
A regra geral, que atravessa o trabalho inteiro dele, é que para subir é preciso descer: para acessar uma virtude, trabalha-se dentro de si o oposto dela. Não se estuda a inveja por gosto da inveja. Estuda-se porque é por ali que se passa.
Cada uma das duas tem a sua virtude, e elas não são a mesma.
Cobiça — da morte dela nasce o Altruísmo.
Inveja — da morte dela nasce a Alegria pelo Bem Alheio.
O altruísmo, ele diz na sessão, é fazer as coisas não pensando em si mesmo, e sim no próximo. E tem uma função precisa dentro do método: é a virtude essencial para desenvolver o terceiro dos três fatores, o sacrifício pela humanidade, que é o trabalho de ensinar ao semelhante. Sem ela instalada, não há como trabalhar pelo outro, porque o que está atuando no lugar é a cobiça, a avareza e o egoísmo.
A alegria pelo bem alheio, ele descreve pelo avesso: ela vem quando a pessoa está totalmente isenta da frequência da comparação. Aí, sim, dá para ver o sucesso do outro e dizer de coração que bom que ele está evoluindo, que bom que está ganhando dinheiro, sem que aquilo tenha peso. É o peso, e não a frase, que denuncia o que ainda está lá. Enquanto a inveja está instalada, a pessoa não consegue ficar feliz pelo outro: ela só enxerga o que está faltando para ela.
E há uma correção final, que ele faz questão de deixar clara: nós não temos virtudes. Nós apenas conseguimos sintonizá-las, e viver plenos do êxtase que elas produzem dentro de nós. As virtudes são do Íntimo, o Cristo vivo que reside em cada coração esperando a oportunidade de atuar neste mundo.
X
Fica então a diferença, que é o que este artigo quis dizer, e o que fazer com ela.
As duas querem. A cobiça quer aquilo, que é de alguém e não tem outro igual. A inveja quer algo assim, e o que a move não é o objeto, é a comparação. A cobiça vai à frente e toma. A inveja fica atrás e pesa. Uma é ocre, a outra é verde musgo. Uma morre em altruísmo, a outra em alegria pelo bem alheio.
O que se faz com isso não é classificar os outros. Ele é explícito quanto a esse ponto em todo o ensinamento: o mundo é espelho, e o que se vê no outro está dentro de quem vê. Quando alguém olha uma pessoa e pensa “que pessoa invejosa”, a inveja não está na pessoa, está em quem olhou.
Só se elimina o que se descobre ter.
E só descobre quem está olhando.
E, como em tudo aqui, o convite é o mesmo que ele faz em cada sessão: não acredite em nada disto. Observe. Na próxima vez que a vontade de algo do outro aparecer, faça a pergunta que separa as duas: existe outro igual? A resposta diz com quem você está falando.
Artigo escrito a partir dos ensinamentos de Gilberto Franzoni, compilado das folhas 51 e 61 do S.E.R., das sessões instrutivas do Altruísmo, da Alegria pelo Bem Alheio, de Gaia e da Justiça, e das lives sobre as sete virtudes e os mistérios do Antigo Egito. Onde há aspas, as palavras são dele. A organização, as passagens de ligação e as explicações são deste artigo, feitas para dar entendimento ao tema, sem alterar o que ele ensina.
Em poucas palavras
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre cobiça e inveja segundo Gilberto Franzoni?
A cobiça quer possuir aquilo que é do outro, e a inveja deseja possuir algo parecido com o que outro tem. A diferença está no objeto: se não existe outro igual, como uma mulher já comprometida, é cobiça; se existe outro idêntico, como um celular, um carro ou uma casa, é inveja.
Fonte: Folha 51 do S.E.R.
Existe inveja branca?
Não existe. A inveja até tenta ser branquinha, mas não funciona, e não importa se ela é branca, amarela ou verde: ela é o que é.
Fonte: Live 17, Mistérios do Antigo Egito - Parte 3; Sessão Instrutiva 120, Resgate em São Roque SP
Como a inveja age dentro de uma pessoa?
A inveja trabalha por comparação, e uma pessoa com inveja se magoa pelo sucesso da outra. Os constantes sentimentos de comparação viram ressentimentos, os ressentimentos viram mágoa e, quando a mágoa é profunda, vira ódio. Nesse ponto ela começa a afetar o coração e outros órgãos, e as vibrações densas acumuladas podem se tornar doenças.
Fonte: Folha 61 do S.E.R.; Sessão Instrutiva 61, Alegria Pelo Bem Alheio
Por que é tão difícil perceber a inveja em si mesmo?
Porque a inveja nunca vem pela frente, vem sempre por trás, e é o elemento que ninguém aceita ter, embora seja mais comum do que se imagina. Sem auto-observação, a pessoa vai achar sempre que aquilo é admiração.
Fonte: Live 22, Sintonizando as Sete Virtudes - O Caminho para Viver em Alta Vibração; Sessão Instrutiva 33, Gaia
Qual a cor da cobiça e da inveja?
A cobiça se manifesta pela cor ocre, algo parecido com amarelo misturado ao marrom, um amarelo sujo, denso, escurecido. A inveja se manifesta pelo verde musgo, um verde sujo de aspecto asqueroso, e se apresenta também como uma cobra de cor verde escurecida, enegrecida.
Fonte: Folha 51 do S.E.R.; Folha 61 do S.E.R.
Qual a virtude oposta à cobiça e à inveja?
Cada uma tem a sua virtude, e elas não são a mesma: da morte da cobiça nasce o Altruísmo, e da morte da inveja nasce a Alegria pelo Bem Alheio. Para acessar uma virtude, trabalha-se dentro de si o oposto dela.
Fonte: Folha 51 do S.E.R.; Folha 61 do S.E.R.; Sessão Instrutiva 61, Alegria Pelo Bem Alheio
Todo desejo pelo que o outro tem é cobiça ou inveja?
Não. É preciso ter cuidado com radicalizações, pois existem sentimentos saudáveis também, ou seja, nem tudo é ego. Os exemplos do cotidiano servem para compreender como a cobiça e a inveja agem, e cada caso precisa ser analisado de acordo com a sua vibração e densidade.
Fonte: Folha 51 do S.E.R.
Cobiça e avareza são a mesma coisa?
Gilberto Franzoni coloca cobiça e avareza como sinônimos, porque, na hora de escrever o texto, via a mesma vibração nas duas. Por isso, onde Samael Aun Weor escreve avareza, ele escreve cobiça.
Fonte: Sessão Instrutiva 51, Altruísmo
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